Prólogo – Enlace com a Fera de Londres

Londres, junho de 1845.

Annelyse desembarcou do coche com a graça esperada de uma dama, embora seu coração pulsasse com uma inquietude nada aristocrática. O vento forte quase arrancou o capuz de sua cabeça, mesmo estando amarrado sob o queixo em um laço de fita cor de marfim. Com gestos contidos e refinados, ela ajeitou a capa sobre seus ombros e alisou a saia do vestido, cujos tecidos ainda exalavam o requinte de um sobrenome que já tivera tempos melhores.

À sua frente, o Clube Black Hollow erguia-se como um monumento à decadência disfarçada de sofisticação. A construção exibia colunas ornamentadas com gárgulas de olhar cruel, janelas em arco com vitrais em tons de âmbar e uma pesada porta de carvalho com uma aldrava em forma de serpente entrelaçada. Situado na infame Rua Raven Croft, em St. Giles, o clube era frequentado por figuras que circulavam entre o luxo e o submundo: jogadores endividados, aristocratas libertinos, damas de reputação duvidosa e negociantes de fortuna incerta.

Annelyse nada tinha a ver com aquele cenário, ao menos na aparência. Mas por trás do porte ereto e das luvas de renda, havia uma urgência que a sociedade não perdoava. Ali dentro, ela não buscaria aventura ou prazer, e sim uma solução. E isso, em lugares como Black Hollow, sempre vinha com um preço.

E o preço seria alto. Muito alto, aliás.

Ainda mais sabendo que teria de negociar com o homem que a alta sociedade sussurrava como a Fera de Londres, uma figura envolta em escândalos, acordos sombrios e poder suficiente para dobrar aristocratas ao seu bel-prazer. E era verdade que ele não oferecia ajuda, apenas riscos. No entanto, Annelyse não tinha opção se quisesse salvar o irmão de ser enviado à prisão de Marshalsea, por ter se envolvido com fraudes, além das dívidas que comprometeram todas as propriedades que o pai lhe deixou como herança.

Annelyse deixou escapar um suspiro breve, cortado pela respiração ofegante que tentava controlar. Inspirava e expirava em ritmo compassado, como se pudesse convencer o próprio corpo a acreditar na calma que ainda não sentia. Sua postura permanecia ereta, treinada e impecável, mas o tremor quase imperceptível em seus dedos traía o nervosismo que ela lutava para ocultar.

Sem desviar o olhar da mansão, procurou discretamente a atenção de sua acompanhante.

— Espero que o noivo de sua prima cumpra com sua parte no acordo — falou a fim de se certificar de que teria sua entrada no Black Hollow facilitada —, e que ele realmente saiba para onde está me levando.

— Está tudo acertado com Frank — Jenny confirmou. — Elizabeth me garantiu que podemos confiar nele.

— Espero que eu não tenha vendido por nada as joias que vovó me deixou para pagar pelo favor dele. — Annelyse se virou de frente para a criada.

— Milady, tem certeza de que quer entrar sozinha? — Jenny encarou sua jovem e meiga patroa com os olhos de quem se ressentia por nada poder fazer para evitar que a filha de um conde se embrenhasse pelo submundo de Londres à procura de um homem que todos temiam.

— Acho melhor você esperar aqui.

— Mas pode ser perigoso para uma donzela se enfiar dentro de um antro de pecados para ir se encontrar com um homem a quem todos chamam de Fera de Londres — Jenny a alertou.

— Perigoso ou não, eu preciso fazer isso. — Annelyse apertou as mãos de sua criada. — Me deseje sorte!

— Vá com Deus, milady! — Jenny abraçou a jovem dama com o carinho que dedicaria a uma querida irmã mais nova. — Lá está Frank — avisou.

Annelyse atravessou a rua com passos precisos, embora por dentro se sentisse frágil e sem forças. Foi recebida por Frank com um leve meneio de cabeça e passou a segui-lo em silêncio para os fundos da propriedade. Uma vez dentro do clube, ele seguia à frente com determinação, desviando com naturalidade das conversas em andamento e dos olhares que se voltavam, por instinto, à figura encapuzada atrás dele. Annelyse mantinha o rosto parcialmente oculto sob o capuz da capa, cada passo era uma travessia entre mundos distintos: o dela, marcado por lembranças e ruínas, e aquele, vibrante, onde o poder se media em sorrisos envernizados e copos que nunca esvaziavam.

À medida que avançavam, os olhos dela percorriam com curiosidade cada detalhe do lugar. A opulência dos castiçais de cristais, as vozes que se misturavam ao som de um quarteto de cordas, o perfume de rosas que se misturava ao de tabaco e couro, as pinturas com cenas idílicas, absolutamente tudo a impressionava. Ela também notava os detalhes escondidos sob a grandiosidade: os sussurros breves entre damas empoadas, o modo como os homens deslizavam os olhos pelos decotes das damas, os discretos acenos que selavam acordos ousados. Tudo tinha uma linguagem que ela ainda não dominava, mas sentia-se compelida a decifrar.

Depois de subirem dois lances de escadas e percorrerem alguns metros em um corredor amplo e ventilado, chegaram a outro, menos iluminado, onde a música tornava-se apenas um murmúrio distante. Frank parou diante de uma porta de madeira escura com detalhes em bronze esculpido.

— Chegamos, milady! — anunciou. — Atrás desta porta ficam os aposentos privados da Fera. Daqui milady deve seguir sozinha. Não posso arriscar meu emprego.

— Obrigada, Frank! — Annelyse tirou de dentro do bolso da capa o saquinho com o dinheiro prometido. — Aqui está todo o valor que combinamos.

— Obrigado, milady! — Frank fez um meneio de cabeça e a deixou sozinha diante da porta dos aposentos do mais perigoso homem de Londres.

Diziam tantas coisas sobre Dylan Barlow que ficava difícil acreditar que todas fossem verdadeiras, talvez ele não passasse apenas de um homem comum que tinha um talento especial para tirar vantagem da desgraça dos outros. Mas diante das circunstâncias em que a família de Annelyse se encontrava, pouco importava se o que falassem era verdadeiro ou não; a dignidade de pessoas que amava dependia do acordo que faria com ele.

E se havia chegado até ali, diante do refúgio daquele homem perigoso, esgueirando-se pelos cantos mais escuros, não fazia qualquer sentido bater à porta. Então apenas forçou a maçaneta e entrou.

O aposento principal exalava uma sofisticação discreta, nada tão opulento, mas ainda assim impressionante. Uma lareira acesa crepitava com suavidade, espalhando uma luz morna e dançante pelas paredes revestidas de madeira escura. O calor que vinha dela era mais simbólico que necessário. Encostada à parede oposta, repousava uma imponente escrivaninha com pernas entalhadas e tampo em couro, onde papéis perfeitamente alinhados aguardavam mãos poderosas. Acima e ao redor dela, prateleiras abarrotadas de livros encadernados em couro e tecido se alinhavam como soldados de um exército intelectual, títulos sobre direito, guerra, comércio… tudo ficava cada vez mais intrigante. No canto entre duas janelas cobertas por cortinas pesadas de veludo, um aparador de bebidas reluzia sob o brilho das chamas. Garrafas de cristal finamente lapidado repousavam em uma bandeja de prata, ladeadas por copos baixos com bordas douradas. O perfume de conhaque e especiarias parecia impregnar o ar, misturando-se com o aroma discreto de papel e madeira polida. Ao centro, um conjunto de poltronas em couro escuro se agrupava diante da lareira, como em torno de uma conversa que nunca cessava. Almofadas discretas, uma mesinha com um cinzeiro ornamentado e um folhetim esquecido completavam o ambiente. Atrás de uma porta entreaberta com entalhes, provavelmente estava o quarto de dormir. Dali vinham vozes abafadas, algumas risadinhas despretensiosas que contrastavam com a solenidade do cômodo vizinho. Tons descontraídos, até íntimos, preenchiam o ar, deixando claro que algo estava acontecendo ou prestes a acontecer; e não era para todos os ouvidos.

— Vou buscar bebida para nós — uma voz feminina anunciou do outro lado da porta entreaberta.

Annelyse se afastou, o coração batendo mais rápido ao perceber que estava prestes a interromper os planos de um casal de amantes.

A mulher de cabelos castanhos, não vestindo nada além das roupas de baixo, surgiu diante dela como se fosse a própria deusa do amor. Os lábios inchados, o rosto corado e os cabelos levemente bagunçados lhe conferiam a aparência de uma mulher satisfeita.

Elas se entreolharam por alguns instantes.

— Dylan! — a mulher atraente chamou por seu amante. — Já não lhe bastam duas de uma vez só para agradá-lo?

Annelyse segurou a respiração, sentindo-se prestes a sufocar diante do escrutínio da mulher. Cada músculo de seu corpo ficou tenso e as palavras pareciam ter sumido de sua mente para se perderem em tantos pensamentos diferentes que desconfiava estar agindo como uma tola.

Então, um homem surgiu por trás da mulher. A silhueta denunciava sua imponência antes mesmo que a luz revelasse os detalhes: alto, com uma postura firme e natural, como quem não precisava se esforçar para atrair olhares de admiração. Os ombros largos e o porte másculo o tornavam uma escultura viva de poder e precisão. O rosto anguloso, de maxilar definido e nariz reto, poderia servir de esboço para qualquer artista obcecado por perfeição. Um discreto brinco de ouro com pedra escura reluzia em sua orelha, detalhe inesperado que acentuava o mistério que o cercava. Os cabelos negros, ligeiramente ondulados e bem aparados, caíam com descuido proposital sobre a testa. E então, os olhos verdes, tão preciosos como pedras de jade, fixaram-se em Annelyse com interesse. Eram olhos que pesavam intenções. Sem camisa, vestia apenas uma calça escura que se agarrava aos contornos de coxas musculosas. Seu desleixo sugeria despreocupação. Sobre o braço, a sombra de um corvo tatuado parecia ganhar vida com o movimento dos músculos. Seus braços cruzados denunciavam paciência, jamais submissão.

Ao ver Annelyse parada ali, envolta em sombras e tensão, ele inclinou levemente a cabeça, estudando-a. Então, em um gesto que não combinava com sua fama de homem perigoso, abriu um sorriso lento e inesperadamente encantador.

Ao vê-lo sorrir, algo dentro dela se acendeu. Annelyse sentia-se envolvida por algo mais do que constrangimento, como se todo aquele momento, toda a espera, todas as perguntas finalmente tivessem encontrado respostas naquele sorriso perigoso. Sim, estava encantada por aquele homem que todos chamavam de Fera de Londres.

E ela sorriu de volta. Devagar. Meiga. Enigmática.

Como quem sabia que aquele encontro mudaria tudo.

— Como assim uma terceira mulher? — Outra mulher, mais baixa e com cabelos ruivos, mas também vestindo nada além do que suas roupas de baixo, surgiu pela porta, despertando-a do transe.

Annelyse sacudiu a cabeça, piscou algumas vezes e soltou um suspiro. Sua mente finalmente voltava a funcionar de acordo com a razão.

— Não estou aqui para isso… — ela não sabia exatamente como se referir ao encontro que sua chegada ali atrapalhou. Jamais poderia imaginar que um homem poderia se envolver com duas mulheres ao mesmo tempo… na mesma cama… nem era decente imaginar tal coisa… ou descobrir. — Estou aqui… bem, eu vim até aqui porque tenho algo a propor ao Senhor Barlow.

As duas mulheres riram. No entanto, um olhar da Fera foi suficiente para que se aquietassem.

— Não costumo tratar de negócios com qualquer pessoa que esconda seu rosto de mim — Dylan a censurou —, sejam eles homens ou mulheres.

Annelyse compreendeu o que ele queria e abaixou o capuz, revelando-se em toda sua graça e suavidade. Jovem e com uma beleza natural que não precisava de muitos adornos, ela trazia no corpo a leveza de um suspiro e no olhar a força de quem sentia e pensava com profundidade. Seus cabelos loiros, lisos, longos e parcialmente soltos caíam pelas costas e pelos ombros como mel escorrendo do favo, e bastava um leve balançar de cabeça para que ficassem mais dourados e luminosos. Quando o feixe de luz cruzou seu rosto, revelou os olhos castanho-esverdeados, enigmáticos e feitos para contemplar o mundo com ternura. Os traços ovais de seu rosto davam equilíbrio à expressão meiga e serena. Pequenas sardas salpicavam o nariz e as bochechas como o detalhe final de uma paisagem capturada ao entardecer pelo pintor mais habilidoso. Os lábios rosados, entreabertos em surpresa contida, poderiam transformar qualquer um em poeta. Suas mãos de dedos finos e elegantes pareciam feitas para tocar piano ou então escrever sonetos ao luar em páginas de papel perfumado. O corpo, esguio e gracioso, absorvia a atenção com naturalidade.

— Agora sim! — Dylan deliciou-se com a visão da jovem dama parada diante dele. Um leve pigarro o fez se voltar para as duas mulheres cuja companhia já não mais o interessava. — Vocês duas, saíam — ordenou, sua voz tinha a autoridade de quem não precisava gritar para ser obedecido e cortou o recinto como uma ameaça velada. A ruiva tentou apelar, mas ele a impediu. — Saíam agora! — repetiu sem tirar os olhos de Annelyse. — Seria de bom tom que se apresentasse — incitou a invasora a se apresentar.

Annelyse engoliu em seco e segurou as pontas da capa como se pudesse se esconder dentro dela.

— Sou Lady Annelyse Sheryl, irmã do Conde de Graenne, e estou aqui para negociar as dívidas do meu irmão — preferiu ser franca e direta.

Dylan sabia o que diziam sobre a adorável irmã do Conde de Graenne: uma jovem delicada, linda e disputada por muitos. Aos seus pés se digladiavam cavalheiros em busca de sua atenção. Mas realmente nenhum rumor o havia preparado para sua beleza estonteante.

— E o que teria uma jovem donzela a me oferecer? Se veio até aqui, deve saber que tenho seu irmão em minhas mãos. — E ele havia se dedicado muitos anos para isso; por isso não seria qualquer proposta que o faria mudar os planos de aniquilar com o pusilânime Conde de Graenne. O mundo seria um lugar melhor sem ele, com certeza.

— É verdade que o senhor comprou as dívidas do meu irmão e que eu não tenho dinheiro para pagá-lo. — Mais uma vez, Annelyse preferiu ser sincera e isso o deixou satisfeito. — E como sei que o senhor é um homem ocupado, pretendo ser direta. É de conhecimento que o senhor não é bem aceito em Londres devido aos rumores que correm a seu respeito, mas eu posso ajudá-lo a mudar isso.

Dylan se sentou e fez sinal para que ela também se acomodasse.

— Eu gostaria muito de saber como uma jovem debutante pode me ajudar. — Ele estreitou os olhos a fim de observá-la. Annelyse se moveu com leveza até a poltrona e, com uma desenvoltura impecável, afastou a saia e se sentou. — Perdoe-me a indiscrição, milady, mas sua família está arruinada e as portas estão prestes a se fechar para vocês.

Ela levantou o queixo, com orgulho, e sustentou o olhar dele.

— As portas se fecharão para os Sheryl se o senhor tirar tudo do meu irmão. — Ela desviou os olhos para as mãos unidas em cima do colo. — Nada somos sem nossa fortuna, é verdade! Mas o senhor também jamais será aceito pela aristocracia se aniquilar com um de nós. Terão ainda mais certeza de que o senhor é um oportunista.

Dylan se levantou e foi para trás da poltrona, onde apoiou os braços no encosto. Seus olhos não conseguiam deixar de fitá-la e a beleza que resplandecia diante de si o fazia se sentir diferente. Talvez um pouco mais propenso a descobrir até onde ela poderia chegar.

— O que pretende, afinal? — a confrontou.

— Que eu e o senhor nos casemos. — Ela levantou os ombros com toda a dignidade que ainda lhe restava. — Case-se comigo, Senhor Barlow! Em troca do perdão das dívidas do meu irmão, o sobrenome da minha família abrirá portas ao senhor. Eu posso lhe trazer prestígio se aceitar se unir a mim em matrimônio.

A proposta de casamento o pegou desprevenido.

Não era novidade que as damas da aristocracia o desejavam em segredo: em suas camas, em seus jogos, em suas histórias sussurradas entre taças e leques. Para algumas o fato de seu pai ser um irlandês era uma ousadia tentadora. Para outras o fascínio residia na origem ilícita de sua fortuna, forjada no submundo que os nobres fingiam não frequentar, mas onde tantos se afogavam.

Dylan, no entanto, sempre soube qual era seu lugar e, sobretudo, onde não pertencia. Jamais se casaria com uma delas. Era um jogo que conhecia bem demais para se deixar seduzir.

Até que aquela jovem, petulante e linda, atravessou sua porta sem pedir licença. E com um olhar determinado e voz doce, bagunçou certezas que ele não sabia que mantinha.

Consumido por uma tormenta avassaladora que lhe desorganizava os pensamentos e fazia o sangue pulsar como brasa sob a pele, ele se aproximou com um passo decidido. Quando a puxou para si, permitiu que o corpo dela se moldasse ao seu, sentindo o tremor sutil e saboreando o instante em que ela começava a ceder.

— Então, senhor? — ela balbuciou quando se sentiu aprisionada por braços tão fortes. A falta de modéstia dele em não ter vestido uma camisa a fez corar.

— Não posso aceitar sem antes ter a prova se podemos ser compatíveis… não pode esperar que me case sem conhecê-la um pouco melhor.

— E de que forma pretende me conhecer? Me cortejando, talvez?

Ele sorriu. Mais uma vez daquele jeito que a fazia se perder por completo, nublando seus pensamentos, fazendo seu pulso acelerar. E, então, o aperto dele se tornou mais firme, moldando-a contra o seu corpo, antes que a boca se aproximasse e o roçar de lábios acontecesse. A ponta da língua dele deslizou com precisão pelos lábios dela, forçando sutilmente a passagem, inundando-a de uma vibração profunda que a desfazia por dentro, deixando-a quente, rendida e deliciosamente perturbada.

Dylan a explorava sem pressa, mantendo-a presa junto de si enquanto suas mãos mapeavam as curvas com um ardor que fazia seu próprio coração trovejar no peito e a virilidade enrijecer em uma resposta física inevitável. Annelyse era pura, intocada, mas trazia em sua suavidade uma atração que a tornava deliciosamente perigosa. Era jovem e inocente demais para perceber o poder que tinha — o poder de arrasar as defesas de um homem e colocá-lo de joelhos.

E que Deus o salvasse de ser esse homem! Embora quisesse muito… Ah, como queria!

Então, ele soube o que tinha que fazer. O mais certo era que seu corpo sabia o que tinha que ser feito.

— Aceito sua proposta, milady! — ele disse assim que afastou os lábios dos dela. — Nos casaremos, mas saiba que não será um casamento de fachada. Eu a quero em minha cama.

— Bem! — Ela espalmou as mãos no peito nu dele e o empurrou, forçando para que a soltasse. Era imprescindível que estivesse com a mente limpa para dizer o que precisava ser dito. — Eu aceito qualquer condição desde que o senhor aceite as minhas — lançou as palavras entre eles enquanto recuperava a compostura.

Dylan deixou-a afastar-se, sentindo a audácia dela avivar o fogo que já lhe devorava por dentro. O sangue pulsava pesado em suas têmporas, e custou-lhe um fôlego inteiro de pura contenção não a enlaçar de novo.

— E que condições são essas? — a indagou enquanto se movia como um felino até o aparador de bebidas a fim de se servir de uma dose de seu uísque mais forte. Precisava encontrar uma maneira de esfriar o corpo e abrandar a libido, senão acabaria seduzindo-a até levá-la para a cama.

— Que não devolva a administração dos bens para Gregory e que eu e o senhor fiquemos com a tutela de meu irmão mais novo. E, por último, mas não menos importante, que seja fiel.

Ele virou-se para ela com um sorriso presunçoso, deixando-o mais atraente.

— Então, milady sabe que o conde não presta. — Ele levantou o copo no ar, como quem estava brindando, e preferiu não mencionar a parte de se manter fiel, algo que não lhe parecia um incômodo considerando que teria uma atraente esposa em sua cama.

— Mesmo que Gregory seja um perdulário, continua sendo meu irmão. E não quero vê-lo preso — esclareceu ela. — Isso significa que terá que sustentá-lo.

— Temos um acordo, milady!

— E quanto àquelas mulheres que estavam aqui… Espero que não se tornem um problema em nosso casamento.

— Serei fiel — ele empenhou sua palavra.

Depois de tomar um longo gole, Dylan encheu outro copo e ofereceu à Annelyse.

Ela recebeu o copo com mãos firmes, o olhar cintilando não só pela bebida, mas pelo peso da decisão selada. Quando seus dedos roçaram os dele, Dylan prendeu a respiração por um instante. E o que havia começado como curiosidade se desdobrava em fascínio.

— Por mais que isso vá contra tudo que planejei — ele murmurou ao perceber que um casamento não estava em seus planos, fitando-a com intensidade —, não consigo negar o prazer de vê-la tão determinada. É quase irresistível. Milady, tem certeza de que quer abandonar os salões antes da temporada terminar para se casar comigo? Pelo que fiquei sabendo se trata de sua primeira temporada social.

Annelyse sustentou o olhar, altiva. Era o olhar de alguém que havia vencido uma batalha sem levantar espadas, e que agora, diante daquele homem de poder e fama incertos, se sentia não apenas à altura, mas no controle.

— Salvar minha família me dá mais satisfação do que qualquer baile da temporada — disse ela, erguendo o copo em resposta a sua saudação anterior. — De todo modo, sem um dote, já estou fora da temporada. Não há lugar para quem não tem nada a oferecer, pelo menos nada que se possa medir em cifras.

O debut de Annelyse aconteceu tardiamente. A morte do pai e da madrasta a obrigara a guardar luto por mais tempo do que o habitual e quando finalmente pôde sair da sombra do veludo negro, Londres já não era a mesma e tampouco seu irmão. Gregory estava falido, embora tentasse esconder o desastre com a mesma elegância que outrora usava para ostentar fortuna. Ainda assim, insistiu que ela debutasse. Disse que um bom casamento poderia salvar a família. Annelyse, inclusive, sabia que o irmão havia se endividado ainda mais para bancar seu guarda-roupa novo, na esperança de casá-la com um aristocrata rico; mas o plano desmoronou quando os rumores da falência começaram a circular por Londres, e não tardou muito para que passasse a oferecê-la como amante àqueles que pagassem mais.

Dylan recostou-se no aparador, encarando-a com um meio sorriso que dizia muito e nada ao mesmo tempo. O desejo ainda pulsava, discreto, sob a pele. Mas o respeito, que ele oferecia a poucos, já tinha sido concedido.

Ela bebericou com elegância, sem desviar os olhos dos dele.

E naquele brinde entre duas intenções, o acordo se tornava algo maior.

Um pacto.

Talvez o primeiro passo para algo que nenhum deles ousava prever.

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